Rio Carrapatinho: o afluente abandonado do Catolé

20 out

Matéria especial publicada no portal Tudo Na Hora

*Com Débora Muniz

O Rio Carrapatinho sempre teve importância na vida da população do bairro do Rio Novo. As águas, que já foram límpidas e motivo de orgulho dos moradores, hoje, recebem esgotos e lixo. As canoas e pequenas embarcações, que antes transportavam peixe e sururu, passaram a levar até as margens a areia extraída do fundo do rio e é a atual fonte de renda de alguns moradores.

Apesar de estar inserido na Área de Proteção Ambiental (APA) da região do Catolé e Fernão Velho, o Rio Carrapatinho não possui nenhum projeto de revitalização ou tratamento, ficando esquecido entre propriedades rurais. Segundo o engenheiro civil especializado em Hidráulica e Saneamento, Eduardo Lucena, as soluções para o descaso e a poluição de suas águas podem estar no Plano Municipal de Saneamento Básico.

O engenheiro faz parte da comissão de professores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) selecionada para executar o plano.  De acordo com ele, os rios que estão dentro de Maceió serão beneficiados com ações despoluidoras. Está previsto para outubro o início das análises e estudos em todas as regiões da cidade. Essa fase deve durar um ano e meio e irá servir como base para as ações que serão executadas.

Sem acreditar nas propostas vindas da esfera pública, pelas ruas do Rio Novo o discurso é um só: “o Carrapatinho nunca teve a atenção do governo”. As palavras são da professora aposentada Maria José Cardoso, de 62 anos, mais conhecida no bairro como Dona Lia.  Nascida no local, Dona Lia viu de perto todo o processo de formação do bairro e da poluição do rio. “Quando isso aqui ainda era um sítio, o pessoal tomava banho, bebia água e pescava. O Carrapatinho era fundo, largo e muito bonito por ser límpido, mas a população foi crescendo, começaram a jogar esgoto, lixo e dejetos industriais nas águas até que ele ficou assim, imundo. Hoje o descaso público matou o rio”, desabafa.

A região que compreende a área de preservação ambiental do Catolé sofre por igual com a degradação. Estudos realizados pelo Instituto Federal de Alagoas (Ifal) apontam que a devastação acontece pelo fato de a região estar em desenvolvimento constante apesar de não possuir estrutura para comportar tais mudanças, o que resulta um estágio acelerado de deterioração ambiental na área. Os resultados não poderiam ser piores: desmatamento da vegetação, ocupação desordenada do solo em áreas dentro e no entorno da área preservada, lixo urbano, dejetos de animais, lançamentos de resíduos industriais, entre outros.

Ao longo dos 72 anos que envolve o processo de constituição do bairro de Rio Novo, o Carrapatinho foi de um extremo a outro. O rio de águas límpidas se tornou um estreito caminho poluído por onde as águas ainda passam até chegar à Lagoa Mundaú. Os peixes e crustáceos dos manguezais foram substituídos por lixo. A extração da areia é a única fonte de renda proveniente do rio para alguns moradores que tentam sobreviver com o que aquelas águas ainda podem dar. Apesar de a atividade ser uma prática clandestina e sem licença ambiental, os moradores não tem o conhecimento do impacto no meio ambiente e a contribuição para o assoreamento do rio. As pequenas montanhas de areia custam, em média, R$ 40, e geralmente são vendidas para depósitos de construção. Estudos de impacto ambiental na região realizado pelo Ifal apontam que a atividade que movimenta o rio é um agravante social pelo fato de representar o único meio de vida para muitos homens que exercem essa atividade.

Antigos e novos projetos, todos no papel

A APA e o Plano Municipal de Saneamento são algumas das análises de impacto ambiental com propostas voltadas para a revitalização do Rio Carrapatinho que se tem conhecimento. O que poderia ser motivo de esperança para os moradores não tem previsão para entrar em execução. Segundo Dona Lia, os projetos nunca saíram do papel.  “Uma vez ou outra algum técnico aparece lá no rio, mas até onde eu sei só foi feito algo pelo Rio Novo na época do governo do prefeito Sandoval Caju”, afirmou.

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH), a área de preservação do Catolé e Fernão Velho compreende parte dos municípios de Maceió e de Satuba, incluindo a Mata Atlântica situada nas encostas do Catolé, Rio Novo e Fernão Velho, além dos riachos Catolé e Aviação e os manguezais da Lagoa Mundaú. Por telefone, o gerente de comitê de bacias, Eduardo Santa Rita, afirmou que a superintendência de recursos hídricos não tem nenhum projeto que contemple o rio Carrapatinho.

Para reger a área, um conselho gestor com representantes da sociedade civil e instituições públicas foi nomeado em novembro de 2009. Porém, não existe nenhuma representação de Rio Novo. A Universidade Federal de Alagoas (Ufal), um dos órgãos integrantes do conselho, possui um Núcleo de Educação Ambiental com um projeto direcionado a esta área. O projeto é desenvolvido para levar conscientização às escolas públicas da região, mas no site da instituição não existe o cadastro de nenhuma das duas escolas públicas do bairro.

O Batalhão de Polícia Ambiental (BPA), que também faz parte do conselho, afirma em seu site que possui uma sede dentro da área preservada a fim de reduzir as possibilidades de atividades clandestinas e degradantes do ambiente. Os estudos realizados pelo Ifal dão conta que a bacia do Catolé está degradada não só por questões socioeconômicos e fatores biológicos, mas também pela falta de programas de educação ambiental nas comunidades e de fiscalização mais eficiente que inibam crimes ambientais.

Outra proposta que pode contemplar não só o rio Carrapatinho, mas também todas as bacias hidrográficas de Maceió é o plano municipal de saneamento. O plano nada mais é que uma exigência da Lei Federal de Saneamento, que pretende levar saneamento a todas as cidades brasileiras até 2014. O projeto aprovado prevê normatizar os serviços de água, coleta de esgoto, resíduos sólidos, além de trabalhar um plano local de habitação de interesse social, que vai avaliar áreas de urbanização na cidade e realizar um trabalho com a população.

“O projeto que submetemos ainda é uma proposta de ação. Ainda não temos nenhum resultado, pois não iniciamos nossas atividades. A única informação que tenho a respeito do saneamento é o que se encontra no site da Casal”, afirmou o engenheiro Eduardo Lucena.

De sítio a bairro: o ‘percurso’ do Rio Novo

A canoa com pouco mais de 80 centímetros de largura, conduzida pelo pescador aposentado José Fernandes Prado, 65, hoje em dia, só navega nas águas do Carrapatinho para passeio. O rio raso, estreito, poluído e com suas margens cobertas por capim, nem de longe lembra aquele que era fonte de renda de alguns moradores da região. “Quando o bairro de Rio Novo começou a se formar esse rio era uma coisa linda, com aquela água limpa que todo mundo bebia, tomava banho e até cozinhava. O povo pescava no rio e tirava sururu da lagoa.”, relembra o pescador.

O rio Carrapatinho possui ligação direta com a história do bairro. A grande quantidade de mamonas, popularmente conhecidas como ‘carrapateiras’, deu nome ao sítio e ao rio que banha a região. Na década de 40, existiam apenas 50 casas. A expansão populacional, porém, acabou tornando o vilarejo de pescadores uma área marginalizada do bairro vizinho de Fernão Velho, que tinha como principal característica a atividade industrial têxtil na Fábrica Carmem.

Segundo Dona Lia, a maior parte dos moradores do Rio Novo se dividia entre funcionários da fábrica e pescadores. “A fábrica alugava algumas casas na vila operária em Fernão Velho, mas para fugir do alto valor descontado em folha, muitos moradores vieram morar no sítio. Outra parte dos moradores sobrevivia da pesca e da retirada de caranguejo dos mangues”, relembra a professora.

A partir da década de 60, com o crescimento da população dos bairros circunvizinhos o processo de poluição acabou agravado. Foi em meio à ditadura militar, no ano de 1964, mandato do prefeito Sandoval Caju, que o sítio se transformou em bairro. O progresso chegou com muitas mudanças, a principal foi a alteração no curso do rio Carrapatinho. Uma dragagem influenciou sua passagem pela extinta Granja São Geraldo para a construção de uma ponte. Com a mudança, o sítio deixou de se chamar Carrapatinho e se tornou bairro de Rio Novo. Também durante esse período foi construída uma estação para a parada do trem e a Escola Estadual de Ensino Fundamental Professor Pedro Café.

A extração de areia é o que movimenta o rio nos últimos vinte anos. Seu José Prado e boa parte dos moradores que nasceram no antigo sítio Carrapatinho, continuam sem perspectiva de um dia voltar a ver o rio limpo. “Infelizmente a população tem culpa por ter poluído o rio, mas o governo também não mostra vontade de fazer algo por nós. O rio tá aí, sumindo no meio do mato, o pessoal parou de pescar e não toma mais banho nele com medo de pegar uma doença. Eu parei de pescar aqui tem mais de dez anos e pelo jeito que as coisas andam, só vai sobrar a sujeira dele para contar a história”, disse o ex-pescador.

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